O GÊNIO E
A GARRAFA
A marca Coca-Cola é, como nenhum outro produto, a mais alta representação do estilo de vida americano, símbolo do imperialismo político e da expansão econômica global. Inúmeros artistas, alguns mais críticos, outros menos, utilizaram como tema os mitos e fenômenos da cultura de massa do século XX usando esse ícone de estilo de vida com suas características formais de garrafa, lata e logotipos em uma multiplicidade de manifestações artísticas, de tal forma que se torna quase impossível não notá-las.
Quando os protagonistas dos países latino-americanos utilizam como tema as ideias e a forma da garrafa de Coca-Cola ligadas às suas referências culturais, isso representa preponderantemente uma atitude crítica social e de consumo frente ao gosto norte-americano pelo poder, que se prolonga até onde as estratégias da expansão de massa e a dominação do “valor ocidental” se relacionam. No fim do nosso século, as possibilidades de trabalho artístico da forma parecem continuar esgotadas e, a princípio, parece improvável que um artista possa trazer novos aspectos a esse tema.
E por esse motivo nos sentimos surpresos e desafiados quando o trabalho de Ricardo Ribenboim é apresentado na galeria KunstRaum, em Berlim, com as até então desconhecidas variações de um objeto familiar. Para tentarmos refletir sobre seus novos métodos e reconhecer seus resultados artísticos, seguimos nossas reflexões passando pelos objetos oferecidos no cenário da KunstRaum.
A parede oposta à entrada está coberta por um grande plano escuro, onde somos confrontados com uma foto de uma intervenção na Bienal de São Paulo (1998). Um piso com cacos brancos e fragmentos, propositadamente fotografado com flash dentro de uma sala escura, nos é apresentado. Apesar do extremo estranhamento devidoà escuridão da sala e da cor branca dos fragmentos, pode-se reconhecer a forma característica da garrafa de Coca-Cola. Qualquer dúvida quanto à interpretação será dissipada pelos objetos colocados no chão, que reconstroem os pedaços na forma de um quadriculado com peças arqueológicas.
Em conversa com o artista, ficamos sabendo que, ao espalhar as reproduções ampliadas das garrafas de Coca-Cola, ele deixa para o público a tarefa de atravessar a sala escurecida equilibrando-se por entre as garrafas colocadas sobre um piso irregular. Faz parte do objetivo e do conteúdo da experiência que na procura do caminho as garrafas se quebrem. O interessante nessa experiência é que o artista não incita o público com agressão nem violência para a produção de seus estilhaços, mas, para atingir o seu objetivo, utiliza a sedução como meio. Podemos deduzir que o trabalho de Ribenboim é marcado como uma expressão do fim do século XX, que, ao contrário de outras exposições, utiliza a percepção e a experiência pessoal, dispensando os gestos agitadores.
Uma grande parte da exposição é dominada por oito pedestais pretos da altura de uma mesa, que apresentam garrafas de Coca-Cola igualmente ampliadas e produzidas com diferentes materiais em várias constelações e conjuntos. Nota-se que todas as garrafas aparecem de alguma forma deformadas ou danificadas.
Alguns cacos estão cobertos por uma camada vermelha viscosa, que de perto se percebe que foi trabalhada com cera de abelha de pigmentação vermelha.
Naturalmente se faz uma associação com sangue. Todas as garrafas parecem feridas e machucadas, suas estruturas de cerâmica porosa nos passam essa impressão devido à sua cor de carne morta, e seu tamanho de aproximadamente 60 centímetros nos faz lembrar bebês. Desse modo, a vitalidade primeira dos objetos apresentados é humanizada, e a dor das vítimas, reinterpretada.
E mesmo o objeto — duas garrafas amarradas uma na outra com um fio sobre o qual o artista pinga tinta azul através de um funil pendurado
no teto — incita imediatamente o pensamento de tortura e agonia. Mas essa é também uma agonia “civilizada”, de refinamento cultural, que aqui é encenada por meio de diversos graus de estranhamento (escolha do material, alteração do tamanho e deformação). Aparece também como que ritualizada, em uma faca sobre uma fina almofada de veludo simbolizando a morte. O estranhamento e a repetição dos modelos sempre iguais levam o contemplador a uma sensação de distanciamento, e assim se pode imaginar algo que também foi o propósito do artista. Aqui se encontra um pesquisador preciso e científico, que mascara sua compaixão com sobriedade aparente.
No fundo da sala aparece um quarto elemento da exposição: uma apresentação de vídeo com a qual o artista demonstra que trabalha com diversas mídias atuais.
O tema da garrafa de Coca-Cola como impressão vermelha sobre um trançado de plástico transparente preto lembra o efeito de um holograma. Nesse trabalho, aparece o lado divertido e alegre da arte de Ribenboim. Nesses símbolos, reconhecemos as duas garrafas prateadas de alumínio polido da entrada, que, como num ato erótico, se tocam. Suas histórias podem ser contadas repetidamente por meio do moderno programa gráfico de animação. O contato intenso e íntimo permite outras possibilidades de se contar a “história”, até o objeto inicial ser dissolvido em uma explosão que, como em um ato de procriação, espalha numerosas garrafinhas flutuantes em um cosmos sem contorno e, com isso, nosfaz lembrar do gênio saindo da garrafa, que, uma vez libertado, espalha suas influências negativas ou benéficas.
- Berlim, julho de 1999. KunstRaum Berlin.