Ricardo
Ribenboim

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Créditos

No conjunto de obras produzidas entre os anos 1990 e início dos 2000 — como os Bólides marinhos da Eco-92, os Infláveis apresentados na Bienal de Havana de 2000 e a instalação realizada para a terceira edição do ARTE/cidade —, Ricardo Ribenboim abandona qualquer vocação para a durabilidade. Sua poética encarna o transitório, o efêmero; o que evapora, escoa ou desfaz-se. A impermanência, até aqui subentendida como método e processo, torna-se imagem manifesta. Água, ar e tempo deixam de ser materiais simbólicos para tornar-se os agentes estruturantes das obras, e o artista incorpora diretamente os elementos da fluidez, do efêmero e da mutabilidade como forma e conteúdo.

Bólides marinhos, intervenção realizada no contexto da Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento (ECO-92), é um ponto crucial dessa virada. A ação consistiu na liberação de mil infláveis na arrebentação da Praia de Ipanema. A escolha do material, cápsulas frágeis flutuantes, já indicava uma recusa às garantias formais, assim como a opção de deixar o mar, sempre imprevisível, se encarregar da deriva. Realizadas em plástico transparente com uma faixa vermelha interna, as bolas traziam inscritas duas mensagens: na parte externa, H2OMEM e, em seu interior, visível através da transparência, Todo mar é um. As duas citações vieram de poemas musicais: H2OMEM, de Arnaldo Antunes, e Lugar comum, de Gilberto Gil. Antunes elenca em sua letra a gota, a lagoa, o mar, a chuva, o banho, o cantil, e no refrão H2OMEM sintetiza a nossa origem e dependência da água. Gil lembra que o mar une os povos do nosso planeta azul: ”À beira do mar, todo mar é um”. Como as garrafas contendo pedidos de ajuda de náufragos, os bólides também levam sua mensagem – mas agora quem pede socorro é a Terra.

BÓLIDES
MARINHOS
1991
Plástico
60 x ø 43 cm

A execução do projeto foi bastante complexa: a operação exigiu inúmeras autorizações, o cálculo preciso da maré e até mesmo o auxílio de um helicóptero para conduzir os objetos até a praia. As formas flutuando surgiam como embarcações rudimentares, animais abissais ou artefatos extraviados. Seu aparecimento intrigou os banhistas, que por fim os resgataram e deles se apropriaram, disseminando a mensagem.

Celso Favaretto, em texto da época, classificou os bólides como transobjetos, capazes de incitar a passagem de um estado a outro, da experiência como vulto da significação. Mas além da transmissão da mensagem está a escolha da deriva, que não é apenas geográfica, é também simbólica.

Os Bólides marinhos encenam o colapso das formas fixas. São estruturas temporárias, criadas para flutuar, desaparecer, talvez naufragar. Sua força está justamente nesse desapego, gesto que ecoa não apenas a raiz ecológica do evento em que foram inseridos, mas também o princípio estético da transitoriedade como potência.

Outra série marcante de Ribenboim é a instalação de infláveis da série Impenetráveis, que tensionam a relação entre corpo e espaço. Apresentados na 7ª Bienal de Havana (2000), os 600 tentáculos transparentes compunham uma instalação densa, sensorial, na qual cada deslocamento do corpo alterava o espaço da obra, criando um ambiente em constante mutação. Um Impenetrável, uma barreira instável, viva e arfante.

Em outro contexto e forma, novos infláveis foram repensados para a exposição Rede de tensões, Bienal 50 (2001), como formas vestíveis, para serem usados e performados pelo público, uma configuração que foi ampliada na exposição Transparencies, realizada em Nova York (2003).

A potência efêmera das obras de Ricardo Ribenboim tem um ponto de condensação máxima na sua participação no ARTE/cidade 3 (1997), em São Paulo, projeto concebido e realizado por Nelson Brissac. Multidisciplinar por vocação, o artista atuou em diversas frentes, sendo responsável, por exemplo, pela impactante concepção visual do Kino trem, que levava o público da Estação Júlio Prestes às ruínas fabris da Zona Oeste da cidade. Inspirado nos trens culturais da Revolução Russa, que difundiam arte e ideologia, Ribenboim projetou para o vibrante fundo vermelho do trem formas construtivistas em amarelo, branco e azul puros, alinhando arte, deslocamento e história. Colocou em prática o movimento que Malevich, pensador do suprematismo russo, apenas simulou graficamente.

Mas é na instalação de gelo armada por ele na plataforma da Estação da Luz que a impermanência assume sua forma mais literal e simbólica. Uma estrutura composta de 350 barras de gelo, que lentamente se dissolviam ao longo do dia, introduzia o tempo como matéria sensível da obra. Como observa Agnaldo Farias, ali não se tratava apenas do movimento físico da locomotiva, mas de outro tipo de movimento — “qualitativo”, nas palavras do crítico. O gelo não se move, mas se transforma. Da rigidez ao escoamento, da solidez à evaporação, a instalação era um espetáculo da transmutação, de mudança do estado da matéria, um balé lento entre o ar e a água, entre o plano e o volume, entre o visível e o etéreo.

O gelo, ao derreter, não apenas modificava o espaço; ele reinstalava o tempo naquele lugar suspenso, deixando um rastro de saudade e memória. Em um ponto do percurso de trem, foi instalada uma cortina d’água, simulando o apagamento das chaminés da Fábrica Matarazzo, um dos poucos resquícios da edificação fabril. Ao fim, o vapor azul era lançado em intervalos regulares por uma chaminé e completava o ciclo. É a desaparição poética da matéria que revela o invisível: o tempo, o calor, a dissolução. Arte que se desfaz para marcar o que permanece — o movimento.

A lógica do mujō — a impermanência budista japonesa — atravessa essas práticas: o corpo é mutável, o ar é instável, a água escapa à forma. Se na tradição do kintsugi o reparo visível indica uma história de ruptura e continuidade, nos bólides e infláveis, assim como no gelo derretido, não há conserto possível. O que há é apenas fluxo, escoamento, desaparecimento. Essas obras instauram um campo expandido da escultura, que dissolve a rigidez do objeto em favor de uma forma em movimento, uma poética do instante. O trabalho de Ribenboim aqui se torna exemplar na multiplicidade de suas frentes de atuação: objeto, performance, intervenção pública, instalação. Mas, acima de tudo, como temos visto, o artista que transforma a impermanência em método — e não apenas tema.

  1. A 7ª Bienal de Havana aconteceu de novembro de 2000 a abril de 2001; houve ainda participação dos Infláveis na exposição Obra aberta, de Teixeira Coelho, no MAC USP, em dezembro de 2001. A exposição Rede de tensões, Bienal 50 anos foi realizada de 24 de maio a 29 de julho de 2001. A mostra na Martinez Gallery, Nova York, ocorreu em 2003.

A proposta de Intervenção marinha ECO-92 opera a indistinção de intervenção ambiental e intervenção no ambiente. Explora a força do paradoxo, não a contradição, pois o emprego deliberado de material convencionalmente poluente — o plástico — visa evidenciar a gênese da contradição. Aplica-se ao real para indicar o possível. Propõe um modo de atividade significante que desloca as significações fixadas (poluente/não poluente, natureza/cultura), mostrando, na situação atual, a inadequação dessas disjunções que, neorromânticas, postulam uma identidade perdida.

No entrelugar, aculturando elementos naturais e não naturais, a linguagem inscreve-se por signos de transmutação cultural. Assim, não se apropria dos despojos cotidianos nem de fragmentos naturais para metaforizar a destruição da natureza e o desejo de recuperação. O uso de materiais e formas tecnocientíficas, estetizados, visam não à desfuncionalização, como é hábito nesses casos, mas à exploração pela ênfase conceitual, da ambiguidade dos significados ordenados. O ludismo opera as passagens do perceptivo-sensorial à significação. Poetização das propriedades plásticas para permitir entrever o que não se manifesta no discurso oficial, moralizante. Entre o sinal e a ação vige o espaço das intervenções.

O que essas produzem? Experiências que revelam tanto do êxtase visual como dos simbolismos dos estados de transformação: memórias, jogos e surpresas que remetem a outra posição do imaginário. Um imaginário descolonizado?

Aspirar, pois, não à recuperação endêmica, ao mito perdido, à restauração sublimadora de um antes da tecnologia, mas à desidealização da cultura, pela associação de real e desejo.

Elementos perturbadores do ambiente conformado detonam, simbolicamente, alternativas.

Essa eficácia simbólica depende, entretanto, da oportunidade e da intensidade dos signos agenciados, pois tudo vira signo se a situação é tensionada, isto é, dotada da força do instante como também de transcendência própria. Uma tal intervenção excita a reflexão.

Para Oiticica, bólides são objetos/não objetos que não se limitam à visualidade; propõem uma entrevisão de uma subjetividade descondicionada pela mobilização de cargas expressivas que renovam a sensibilidade na experiência individual e coletiva. Enfatizam o conceitual e o processual; ressaltam a luminosidade da cor, das texturas e dos movimentos.

Transobjetos; estruturas imanentes, marejadas pela transparência, incitam a passagem de um estado a outro da experiência como vulto da significação.

Disseminados, multiplicados no ambiente, como nessa proposta, desencadeiam as forças inconscientes e agenciam a consciência produtiva: reflexão.

  1. Texto para folder da exposição no Museu da Imagem e do Som, 1992.
    Revista Atlântica, número 22, 1999.

Essa proposta de intervenção na paisagem marinha é uma representação simbólica do olhar do mundo sobre o Brasil. Um Brasil quase todo banhado pela costa atlântica que ao mesmo tempo nos dá sempre a sensação de imensidão — “Todo mar é um”. Um vulcão na horizontal, mas também um mar “camisa de força”, preso pelas dificuldades, pelos desequilíbrios que enfrentamos em todos os sentidos. É maré vermelha! É um mar que vomita — devolvendo para a terra todos os seus detritos. Pirata, de mensagem de socorro. Esses objetos são feitos desse material que tem o cheiro da minha infância — descartável e multiplicador.

É sem dúvida um jogo feito de objetos que, ao serem cuspidos pelo mar, a divulgação coordenada com a imprensa, darão conta de que não sobrará um único objeto no mar.

Esta proposta é, antes de qualquer outra coisa, plástica: tem forma, peso, cor e mais que isso: tem a busca de um olhar estético explorando o estado, a leveza e a transparência da água, do plástico, do flutuar, do ar.

A atitude será a de depositar mil Bólides marinhos sobre o mar. Mais precisamente, na arrebentação da Praia de Ipanema e outras praias.

Quanto maior for o número de praias, mais interessante será. Possivelmente deverá acontecer concomitantemente no Brasil, em Portugal, na Austrália e no Japão.

  1. Revista Atlântica, número 22, 1999.
MULTIDÃO | IMPENETRÁVEL
2000
Plástico
Instalação de 600 infláveis
220 x 60 cm diâmetro cada
MULTIDÃO | IMPENETRÁVEL
2000
Plástico
Instalação de 600 infláveis
220 x 60 cm diâmetro cada
IMPENETRÁVEL
2000
Exposição Obra Aberta
Plástico e madeira
320 x 450 cm
MAC USP São Paulo SP
Life saving for homeless
2001
Plástico
96 x 53 cm
Life saving for homeless
2001
Plástico
96 x 53 cm
Ação/intervenção realizada em cinco pontos do espaço expositivo da Bienal com 600 infláveis que serviam como suportes móveis e simbólicos, recobertos por projeções e imagens captadas da paisagem visual urbana. Como organismos vivos que respiram e colapsam, os infláveis expressavam uma crítica sensível às tensões da metrópole, ao abordar questões como exclusão social, moradia e sobrevivência precária, evocando ressonâncias com as proposições sensoriais de Lygia Clark.

Além do design e da direção cultural que o mantiveram ocupado durante anos, além das diversas facetas polivalentes que abrangem sua obra — sejam esculturas, instalações, pesquisas ou curadorias —, a criação do reconhecido artista paulista Ricardo Ribenboim (São Paulo, Brasil) é, antes de tudo, uma convulsão discursiva, uma perversão da controvérsia em si mesma, que busca quase sempre capturar o corpo do espectador, obrigando-o a pensar — e, por vezes, a agir — além das formulações aparentes e circunstanciais. Isso ocorre por meio da fragmentação formal sobre a qual se ergue seu fundamento lúdico, social e estético.

A partir dessa determinante fragmentação, que vemos reiteradamente articulando um discurso ora híbrido, ora barroco, ora formal, impõem-se os atributos mencionados: o jogo, a intervenção, a metamorfose, tanto corporal quanto significativa, subvertem as transparências, as simulações, as mudanças inconstantes de pele e de papéis. Tudo isso resulta de projeções materiais diretas, de desenvolvimentos espontâneos

de toda sorte de tecnologias duras e brandas, tradicionais e de última geração, que o artista incorpora em um processo que tanto integra o espectador quanto o submete a um distanciamento deliberado, porém transponível, permeável, capaz de evocar respostas e questionamentos muito diversos — da opacidade ao ocultamento.

Essa inelutável dimensão social de sua obra — que, sem dúvida, retoma a extraordinária tradição brasileira sobre o corpo — afeta necessariamente o sentido de sua proposta, a ponto de recolocar o próprio fundamento no contexto em que surge. Ao mesmo tempo, determina a superação desse mesmo contexto, além do muro transparente e desmontável, num cenário em que os destinatários corporais — os afortunados residentes de Nova York — poderão levá-lo parcialmente para casa e disseminar, como esporos, corpo e trans­parência ao mesmo tempo.

Life saving for homeless
2001
Plástico
96 x 53 cm
  1. Texto para a exposição Transparencies, Martinez Gallery, NY, 2003.

Ricardo Ribenboim articula, através de dispositivos que trabalham os quatro estados da matéria, instalados ao longo do ramal ferroviário, uma frase urbana. Um enunciado que narra a destinação daqueles lugares. Uma operação que combina mecanismos fabris e linguagem simbólica na escala da cidade.

Uma história contada com o auxílio da matéria-prima fundamental do processo industrial: a água. O vapor, tradicionalmente usado para impulsionar o maquinário industrial. A água em todas as fases do seu processo de transformação.

Na Luz, uma estrutura de placas de gelo, por entre as quais as pessoas podem passar, experimentando sensações de frio e calor. Uma situação de deslocamento que é típica das estações de trem. A mutação do estado sólido para o líquido servindo de metáfora das partidas e chegadas.

No Moinho, extraordinária ferida urbana, ocorre um purgamento do material. As bases dos silos destruídos, formando uma espécie de concha, são cheias de um material borbulhante, em permanente fervura. A passagem do líquido ao estado pastoso dá sequência à narrativa. Essas estruturas servem de cadinho para a purificação de tudo aquilo que ali foi aviltado e conspurcado.

Na Matarazzo, por fim, uma cortina d’água, erguida na chegada do trem, na perspectiva das construções, parece um dispositivo de apagamento. A água lava as impurezas, levando consigo todas as coisas. A matéria começa a se desfazer. Resultado a que se chega no último dispositivo criado por Ricardo Ribenboim: uma instalação com vapor numa das chaminés da fábrica. O vapor, acumulado dentro da chaminé, é liberado a intervalos regulares, rimando com a pontuação feita pelas passagens dos trens. A fumaça é o último estágio da desaparição: completa-se o enunciado.

Fecha-se o ciclo de decadência e revitalização: o ritmo do vapor saindo pela chaminé indica que o espaço voltou a pulsar. Tempo é reintroduzido naquele lugar em suspensão. Os processos da matéria — o derretimento, a fervura, a liquefação e a evaporação — revelam o movimento oculto naquele mundo aparentemente inerte.

O Arte/Cidade é uma sentença urbana que abre aspas na Estação da Luz e fecha aspas nas ruínas das Indústrias Mattarazzo. [RR]
  1. Texto publicado no catálogo
    Arte/Cidade 3

Em um trabalho realizado há pouco tempo, parte integrante do megaprojeto ARTE/cidade, exposição que teve lugar ao longo de um interstício urbano deteriorado de 5 quilômetros de extensão, ligando o centro à Zona Oeste da cidade de São Paulo, Ricardo Ribenboim, entre outros trabalhos/intervenções apresentados na ocasião, chamou atenção do público por haver juntado na plataforma ao lado da linha de trem da estação Júlio Prestes algo em torno de 350 barras de gelo. Todas de pé com alturas variáveis, formavam um conjunto retangular compacto “emoldurado” por sarrafos largos de madeira clara.

A alvura do material, acentuada pelas variações volumétricas das barras de gelo, trazia junto a ideia de pureza e silêncio. Um efeito que contrastava com a atmosfera ruidosa e sombreada da estação de trem, com seus sons altos e súbitos de metal contra metal, o imenso corpo de ferro do trem travando sua velocidade na chegada ou pesadamente se lançando para fora da estação, serpenteando através da cidade, deixando à sua saída seu rastro sonoro de massa expansiva progressivamente tornado um tênue fio distante até se esfumar nas microscópicas partículas de pó em suspensão vistas flutuando nos raios que refratavam pelas telhas claras e pelas frestas do telhado.

Afora sua luminosidade, a construção de gelo intrigava pelo que sugeria de efemeridade; aos poucos, ao passo que se dissolviam, os volumes se soldavam, até desaparecerem num plano transparente de água a escoar por entre os pequenos intervalos dos sarrafos que serviam de barreira ao conjunto. A questão preponderante aqui é o movimento. O movimento da locomotiva — movimento que outrora ela, quando locomotiva a vapor, deveu a água — refere-se ao deslocamento no espaço.

Um deslocamento de ritmo variável, pelas sucessivas acelerações e freadas, interrompido pelas paradas nas estações. Visto de cima, abstraindo-se a concretude da cidade, tem-se um pequeno segmento de reta cheio, como um líquido dentro de uma mangueira transparente, a fluir para lá e para cá ao longo das duas linhas paralelas — os trilhos.

Já o movimento das barras de gelo é de outra natureza; trata-se de um movimento qualitativo. Do gelo para a água, do sólido para o líquido.
O espectador poderá ter conferido o lento e implacável espetáculo do toque do ar dissolvendo a superfície do gelo. A troca de hálito dos elementos. Um evolando-se para o outro, como uma aragem feita de pequenas nuvens esgarçadas. O ar ataca macerando a superfície da pedra e a vai reduzindo em vagas imperceptíveis que brotam da superfície para se derramar em direção à base até formar um tapete irregular. O próximo passo é esse tapete líquido se evaporar. Abstraia-se a natureza do material e ter-se-á a passagem do volume para o plano e do plano novamente para um volume. Só que agora um volume intangível, que não se separa do ar como o anterior, mas que se confunde com ele.

O trato com o movimento, entendido numa formulação ampliada, tem sido uma constante na trajetória de Ribenboim. É frequente seus trabalhos testarem até o limite a capacidade de algo — coisa ou signo — prosseguir sendo ele próprio, mesmo após haver sido compactado, dilacerado, liquefeito, amassado, derretido, distendido.

Inspirando-se nas formas estáticas de Malevich, pioneiro do Suprematismo russo, Ribenboim criou uma animação em que as formas pintadas se deslocavam à medida que o trem percorria os trilhos.
  1. Texto para o catálogo da exposição
    Troca de pele, Paço Imperial, RJ.
    Publicado na revista Atlântica, número 39, 2004.

Se na série dedicada à Coca-Cola Ribenboim foi do invólucro, em sua pureza industrial e ergonômica, ao detrito, à metáfora arqueológica, no ARTE/cidade 3 (1997), ele inverteu o percurso, tendo como ponto de partida o espaço urbano decadente. Num dos textos estampados no catálogo do evento, Lorenzo Mammi refere-se a São Paulo como “uma cidade cega, que não vê a si mesma”, uma cidade que “não nasceu de um conjunto de moradias, mas de uma empreitada industrial, que já embutia em si toda a violência posterior”. E foi nessa paisagem deteriorada, morada do crime, que Ribenboim fez uma série de intervenções pontuais, interconectadas.

A primeira intervenção ocorreu no próprio trem, cujas laterais foram pintadas com formas geométricas e cores vivas. A máquina operando, ao mesmo tempo, como um elemento visual e dinâmico incidindo sobre um espaço croma­ticamente neutro e materialmente deteriorado, dando-lhe, assim, maior visibilidade, e como articulador espacial das demais intervenções. Em todas elas a matéria-prima essencial era a água. Na plataforma da estação da Luz armou uma estrutura com 350 barras de gelo.

Em seis enormes cuias localizadas na base de silos semidestruídos, colocou, sucessivamente, junto à água, carvão vegetal, óleo, ossadas de um cadáver, como tantos ali desovados em disputas de traficantes, o que sobrou de objetos carcomidos pelo abandono pela fuligem. Uma espécie de cortina de água pura que se via à chegada da Estação Matarazzo completava o percurso.

O movimento era o elemento unificador de todos os trabalhos: o trem que se deslocava lentamente sobre os trilhos, o gelo se desfazendo, comprometendo a estrutura minimalista, as borbulhas ferventes na água putrefata, liquefação, evaporação, queda. Visíveis ou legíveis nas intervenções, tanto a crítica social quanto a metáfora bíblica: pecado, purgação, ascensão. Mas eram também obras cinéticas, hidrocinetismo. Um cinetismo que, distanciando-se de sua tradição retínica, mecânica, pendular, aproximava-se da arte povera no que ela tem de orgânico e de reelaboração estética das estruturas internas da matéria.

SILOS | CARVÃO FLUTANTE
Instalação do percurso
Carvão vegetal e água
  1. Texto para o catálogo da exposição Troca de pele.
    Galeria Nara Roesler, 1999.