Troca
de pele:
Metamorfoses
Em Troca de pele, Ricardo Ribenboim inaugura um ciclo decisivo em sua trajetória artística, em que as investigações sobre a forma, o corpo e o ambiente se intensificam por meio de operações sensoriais e conceituais que desafiam a rigidez do objeto. A exposição, apresentada inicialmente na Galeria Nara Roesler em 1999, delineava um corpo de esculturas de madeira, cuja rigidez aparente era subvertida por um engenhoso sistema de articulações que permitia às obras assumirem diversas posições, insinuando vida e movimento. Na performance de abertura, a bailarina Vera Sala se entrelaçava com uma dessas peças ao som percussivo de Caito Marcondes, ampliando o campo perceptivo da escultura para o da experiência coreográfica e afetiva. Agnaldo Farias viu, na escultura articulada que se enrola ao corpo da bailarina, a suspensão das fronteiras entre objeto e ser, sugerindo uma transitividade rara na arte brasileira: “O corpo do signo enrodilhava-se no corpo do ser”.
O trabalho, entretanto, não se esgotava na materialidade da madeira. Outro eixo da exposição envolvia a projeção de vídeo sobre uma escultura de mármore, criando a ilusão de um corpo pétreo ondulante, em permanente mutação. A dualidade entre dureza e fluidez, entre o fixo e o efêmero, se tornava uma metáfora visual da impermanência como estado da matéria — e do sujeito.
Sobre a mostra, disse a crítica Angélica de Morais: “Exposição mais importante de seu percurso até o momento, Troca de pele significou a chegada de Ribenboim àquele patamar em que, já dispondo de bagagem consistente de trabalhos, começa a frutificar suas derivações coerentes. A rigor, pode-se dizer que boa parte de tudo o que ele criou desde então é fundada nesse momento especial de sua trajetória de artista plástico. (…) Nesse caminho, Ribenboim está chegando a uma síntese, a um amadurecimento feito tanto do escavar mais fundo nos seus enunciados quanto em espraiar essas imagens recorrentes para diversos meios, hibridizando-os”.
A convite de Lauro Cavalcanti, a mostra seguiu para o Paço Imperial, no Rio de Janeiro, em 2000, e ali, nas salas coloniais com seu antigo piso de pedras, os trabalhos ganharam novo fôlego. A escala, a luz e o tempo arquitetônico do espaço dialogavam com a mutabilidade das obras. Comentando o trabalho, Frederico Morais observou que essas esculturas ondulantes, quase serpentes, aparentemente marcariam um “recuo formalista”, mas na verdade ajudavam a demonstrar que o artista atualizava o ideário neoconcreto, em especial a participação sensorial evocada nos Bichos de Lygia Clark. Celso Favaretto, por sua vez, ressaltou que a exposição articulava elementos recorrentes da arte contemporânea: madeira, peles, borrachas, fios, mas em Ribenboim esses materiais se ligavam para “remeter a uma idealidade: a arte como um exercício de imaginação e fantasia, de experiência e pensamento”.
1999
Madeira e pele de cobra
500 x ø 40 cm
Col. Simone Cosac Naify
Essas investigações se desdobraram em participações internacionais, como no P.S.1 em Nova York, e também na mostra Atitudes, apresentada na Galeria Anna Maria Niemeyer (RJ) em 2003. Lá, um tríptico de peças verticais com pontas articuláveis insinuava uma floresta negra e perigosa, amplificada pela trilha sonora de Zbigniew Preisner. Nessa exposição já estavam também presentes pinturas em preto e branco sobre papel, que emulavam os corpos mutantes. Essa pesquisa monocromática foi desenvolvida pelo artista em telas e outros suportes, alcançando uma autonomia abstrata.
No conjunto das exposições que formam o núcleo Troca de pele, Ribenboim nos apresenta formas em trânsito, signos mutantes, esculturas que se insinuam como corpos vivos, adaptáveis, sensíveis à presença. É nesse corpo articulado — ora serpente, ora arquitetura, ora vírus — que o artista realiza a alquimia entre permanência e impermanência, corpo e signo, material e espírito. Um processo que já evocava um novo estágio de pesquisa no qual o artista iria impregnar a matéria com a ação do tempo e da vida.
- Em matéria de O Estado de S. Paulo.
- Trabalhos dessa vertente fizeram parte da coletiva Elipses, no espaço Oasis, no Rio, em 2022, e da Ocupação Casa Gerassi Paulo Mendes da Rocha em 2025.