Biopoéticas –
Mutações e
contaminações
Ao submergir duas esculturas na Lagoa da Conceição, em Florianópolis, Ricardo Ribenboim inaugurou, em 2002, uma vertente experimental que transforma o objeto artístico em plataforma para a ação do tempo e da natureza. As obras, uma de madeira e outra de alumínio, chamadas de Bicho da lagoa, foram parte de uma pesquisa do artista, com a colaboração de Gabriel Ribenboim, que filmou o mergulho das peças e acompanhou sua transformação ao longo dos meses em contato com a água, o limo e os organismos vivos. O gesto radical de submergir uma escultura em um ambiente natural revela uma inflexão decisiva na poética do artista, pois não se trata mais de tensionar a forma, mas de deixar que ela se transforme com o tempo e a ação do mundo. A obra se converte assim em um organismo mutante, entregue ao imprevisível, habitado por vida aquática e documentado como experiência.
A curadora Daniela Bousso observa que, com esse trabalho, Ribenboim “leva ao limite a discussão referente ao ‘lugar comum’ da instalação da obra de arte” e realiza um deslocamento extremo de seu locus tradicional. Ela compara seu gesto aos de Duchamp, Oiticica ou Artur Barrio, inscrevendo o artista em uma linhagem de rupturas críticas. No próprio depoimento de Ribenboim, ele define o Bicho da lagoa como um “ready-made biológico”, cuja transgressão essencial está em “interferir no estado natural” do objeto artístico ao deslocá-lo para a esfera da vida. Mais do que documentar a transformação da obra, ele captura o momento em que arte e natureza se tornam indissociáveis.
A inovadora pesquisa foi reconhecida e recebeu o 5º Prêmio Sergio Motta de Arte e Tecnologia em 2004. Como consequência da premiação, Ribenboim apresentou os desdobramentos da investigação na exposição hiPer>relações eletro//digitais, no Santander Cultural de Porto Alegre. Para isso, exibiu o Bicho em um aquário sobre o qual era projetado o vídeo com os registros do processo de transformação. Ali, o artista reuniu vestígios, projeções e estruturas que dialogavam com o tempo da matéria e a lenta metamorfose da forma. A ideia era dar continuidade ao projeto com obras depositadas em Fernando de Noronha e nas Ilhas Galápagos, onde Gabriel Ribenboim foi fazer uma especialização, mas as dificuldades de implementação impediram essas derivações.
Ainda dentro do mesmo tipo de pesquisa, Ribenboim desenvolveu estruturas modulares de vergalhões de aço projetadas para atuar como recifes artificiais. A proposta era submergir a estrutura como em Bicho da lagoa, mas, finalmente, um desses aramados foi construído e colocado de ponta-cabeça no Parque Estoril, de São Bernardo do Campo (SP), no projeto Obra Viva, exposição permanente com instalações de nove artistas selecionados pelo curador Iacopo Crivelli Visconti.1
Em paralelo, Ribenboim desenvolveu a série Vírus, paradoxalmente composta de estruturas virtuais animadas digitalmente e projetadas sobre superfícies em movimento. Esses organismos flutuantes — lembrando formas microscópicas como amebas ou protozoários — operam como símbolos das dinâmicas de contaminação, replicação e instabilidade que atravessam o corpo social. Apresentada no Paço Imperial (2000) e exibida também na individual Transparencies, na Martinez Gallery de Nova York (2003), a projeção trazia formas pulsantes, vermelhas, quadriculadas que “tatuavam” o espectador, como se ele estivesse sendo contaminado, evocando simultaneamente controle e mutação, como se a arte fosse, ela mesma, um vírus instalado no tecido cultural.
Sobre esse trabalho, na apresentação de Troca de pele, no Paço Imperial, o crítico Luiz Camillo Osório comentou: “A contaminação entre o orgânico e o inorgânico, o concreto e o virtual chega ao ponto culminante na videoinstalação Vírus. Ao entrar na pequena sala ao fundo da galeria, o espectador é tragado por um túnel de luz e fumaça, tendo ao centro uma projeção de pequenos vírus em movimento. A luz ganha corpo através da fumaça. Se antes, em alguns trabalhos, víamos a matéria se decompondo em luz e movimento, aqui vemos o contrário: a luz se materializando e criando abrigo virtual para o espectador. Não hesitaria em afirmar que é no suporte tecnológico que os trabalhos de Ribenboim ganham originalidade, abrindo-lhe um enorme campo de atuação”.
Entre o Bicho que se submerge e o Vírus que se propaga, Ricardo Ribenboim afirma uma arte que se move entre o biológico e o virtual, entre o gesto e o código. É nesse entre — sempre instável, poroso, impermanente — que sua obra encontra um hábitat fértil.
2004
Alumínio
90 cm x Ø variável
Bicho LC02 é uma instalação
feita a partir de objeto submerso
na Lagoa da Conceição em
Florianópolis, SC por 18 meses
em processo de absorção de
organismos vivos.
- Cadu Costa, Guto Lacaz, João Loureiro, Laura Vinci, Marcius Galan, Regina Silveira, Ricardo Ribenboim, Saint Clair Cemin e Sandra Cinto desenvolveram instalações especialmente para o lugar.
- Camillo Osório. “Flerte promissor entre escultura e tecnologia”. O Globo, 8 de junho de 2000.