Continente Conteúdo: Transformação e urgência
Sempre tratando a matéria como fluxo e transformação, Ricardo Ribenboim desenvolveu, em 2004, a instalação Continente conteúdo, apresentada na capela dessacralizada do Solar do Unhão, sede do Museu de Arte Moderna da Bahia. A obra propunha uma travessia sensorial e simbólica pelo espaço expositivo: o visitante era convidado a atravessar a capela pisando em semiesferas de madeira, num percurso instável que dificultava o equilíbrio. Um arco de madeira marcava a passagem rumo ao altar, onde repousava uma grande pedra de cânfora em lenta evaporação. O ar se enchia de um aroma que remetia ao incenso dos ritos católicos, evocando um perfume de sacralidade que, como o mar, se revelava passageiro e em constante transformação.
Nas laterais, duas projeções de vídeo conduziam a narrativa visual: uma delas, intitulada Continente, trazia imagens poéticas daquilo que o oceano recebe, como as gaivotas sobrevoando o mar; a outra, Conteúdo, mostrava resíduos devolvidos à praia: melancólicos esqueletos de pássaros, repugnantes animais semidevorados, todos abandonados e quase fossilizados nas areias de Galápagos e, em outro contexto, o vergonhoso lixo gerado pelo ser humano registrado em uma praia no sul da Bahia. Jacopo Crivelli Visconti, em seu sensível texto de apresentação, observa que essa dualidade entre o mar da imaginação e o mar da realidade, entre o simbólico e o concreto, entre o eterno e o decomposto estrutura o percurso poético da obra. O artista se movimenta entre esses extremos, assumindo um compromisso radical com o processo de transformação da matéria.
Museu de Arte Moderna da Bahia
2004
Quase 20 anos depois, em 2023, a instalação ganhou vida no Centro Cultural Hélio Oiticica, no Rio de Janeiro. A releitura incorporou elementos da versão apresentada na 8ª Bienal de La Paz (2013), com os realistas urubus Devoradores de sueños, criados pelo artista, enfatizando o teor trágico e urgente da obra: agora, o mar da arte e da poesia cede lugar à denúncia direta da catástrofe ecológica. A mesma poesia que conduzira a mão do artista em 2004 retornou em 2023 carregada de um pressentimento de fim. Crivelli reforçou em novo texto: “O lixo que o artista recolhe nas praias e traz até o contexto asséptico do museu pode ser lido como outro tipo de memento mori. Quem está morrendo, na nossa frente, é o próprio mar”.
A relação entre corpo, decomposição e crítica social já havia aparecido de modo pungente em 1997, na exposição ARTE/cidade 3. Em um dos espaços abandonados do complexo urbano, Ribenboim criou uma instalação que confundia arte e crime. Um esqueleto de resina mergulhado em óleo negro com pigmento remetia a um cadáver submerso, e seu entorno, com o líquido escorrendo pelas bordas, sugeria uma cena de violência real.
Essa linha de investigação – do corpo e da matéria como vestígio e testemunho – une as três obras analisadas neste capítulo. A impermanência, mais uma vez, se revela como método: o mar que embala o lixo, a morte que se dilui no altar, o esqueleto confundido com a realidade. Em Ribenboim, não há separação entre o que vive e o que se desfaz. Seu gesto é o de inscrever, com rigor e poesia, a decomposição como parte de uma biopoética maior, que revela os ciclos do mundo, da arte e do tempo.
Em 2025, traçando paralelos entre memória e urgência ambiental, Ribenboim participou, a convite de Paulo Herkenhoff e Ailton Krenak, da exposição Adiar o fim do mundo, apresentada na Fundação Getúlio Vargas (RJ) no contexto da realização da COP30, em Belém. Nela, voltaram à cena os ambíguos urubus, lembretes da morte e da impermanência, e surgiu uma obra contundente na sua aparente simplicidade: um tubo de ensaio repleto de água do Rio Negro contaminada com mercúrio. Intitulado H2OMEM, o trabalho é um lembrete das decisões não cumpridas da ECO-92. Ribenboim amplia assim a constelação de obras que investigam o ciclo da vida e da morte no planeta, uma faceta ativista que perpassa sua produção desde o início de sua carreira. [DM]
1997
Arte/Cidade 3
2003
Fotografia
Galápagos
- Os urubus criados pelo artista, com a colaboração de Luciano Mello Witkowski Pinto, eram acompanhados, na apresentação da Bienal de La Paz, por uma trilha sonora gravada com o texto de Ricardo Ribenboim: “Cientos de buitres volaban, el pájaro negro se posó sobre mi puerta medio abierta; mi cuarto empezó a quemarse, los buitres huyeron, menos el pájaro negro que voló gris clarito con las cenizas y el viento viejo. Los buitres volaron en sentidos contrarios, aturdían con millones de ruidos diferentes en los oídos de los habitantes, algunos tonos más altos los herían, de repente una voz suave y delgada gritó: amarren los perros”.
- A obra participou da exposição Rastro dos restos, com curadoria de Rachel Vallego, MAC-USP 2023/2024; de exposição Claudia Andujar e seu universo, com curadoria de Paulo Herkenhoff, apresentada no Museu do Amanhã, RJ, 2025; e da exposição Adiar o fim do mundo, com curadoria de Paulo Herkenhoff e Ailton Krenak na FGV-RJ 2025.