Ricardo
Ribenboim

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Créditos

Intervenções: disparar ações simbólicas. Pontuar o espaço, marcar o ruído e o tempo. A intervenção, hoje, não visa à cidade como um todo indistinto: seleciona, escolhe elementos com poder de sugestão. Incita o intérprete de signos a estender o pontuado para outras cenas. É uma interpretação-perspectiva, não apenas do olhar, mas enunciação de tempos simultâneos, de redes associativas que disparam um pensamento sobre a cidade. Deslizando de um ponto para outro, montando relações, agenciando humor, a intervenção indicia emblemas de rasgos, feridas que solicitam ações curativas singulares, exigem terapêutica diferenciada. Não a aplicação de técnicas curativas, antes a investigação que problematiza.

Na situação contemporânea, a intervenção não procede da ideia de ruptura, mas da possibilidade de singularizar, construindo o vulto da significação. Explora o sentimento do tempo, propõe a terapia pela análise do instante. A velocidade e mobilidade fazem da cidade um espaço de metamorfose, exigindo atenção aos detalhes com força de significar um trabalho continuamente ressignificado. Este projeto codifica um ícone do consumidor — o Band-aid –,agenciando a ideia de reparo por um processo de identificação: passagem do uso individual para a sensi­bilidade coletiva. A cidade como morada, utilitário e ambiente em formação.

Listar e classificar tantos pontos quantas feridas a cidade “oferece” exigiria uma pletora de ataduras. Trata-se, então, de escolher feridas incisivas; sensíveis, comuns, e no entanto escandalosas: algumas que, já codificadas, correm o risco da indiferença — os meninos de rua, os buracos de rua, a poluição visual dos objetos e edifícios considerados patrimônio público, as pichações, a reciclagem, os rios Tietê e Pinheiros, dentre outras.

Não se pensa, aqui, numa atitude outrora marginal; agindo no contexto das ações
institucionalizadas, seu interesse volta-se para instigar as intérpretes a estender a identificação de espaços feridos e a aplicação do curativo. O próprio objeto — o Band-aid — assim o indicia: vazado, veda e deixa transparecer — ver, pensar, interpretar através. Não também a atitude do outdoor, da publicidade, que veicula mensagens de sentido público marcadas sempre pela destinação ao consumo; aqui, exatamente pela circunscrição institucional da intervenção, trata-se de erigir fatos destacados da paisagem urbana em elementos de um código constituído de imagens, camadas sobrepostas, graficamente interpretadas.

BAND-AID
1992
Fibra de vidro e resina
400 x 130 cm
Acervo Escola da Cidade
São Paulo SP
INTERVENÇÃO BAND-AID
Adesivos aplicados em
pontos degradados da cidade.
1992/1994
70x15 cm
  1. Revista Atlântica, número 22, 1999