Coca-cola e
a arqueologia
do consumo
Artista de múltiplas frentes e vocações, Ribenboim encontrou na cultura de massa um campo fértil de estudo. Sua longa e profunda investigação sobre a garrafa de Coca-Cola revela-se não como um gesto pop, mas como crítica sutil, quase arqueológica, de um objeto-símbolo da sociedade contemporânea.
Com a precisão de um designer e o olhar de um arqueólogo do presente, Ribenboim passou a decupar a forma da garrafa, quadriculando-a, redesenhando-a, reenquadrando-a como um projeto de arquitetura líquida. Essa operação, aparentemente formal, é já um gesto simbólico: ao tratar a garrafa como estrutura, ele a retira do campo do desejo e a inscreve na lógica do estudo e da desconstrução. A embalagem, invólucro do fetiche, torna-se corpo vulnerável.
Como bem pontuou Frederico Morais, seu embate não é com a bebida, mas com o recipiente: “Destruir para compreender”. Ele torce, achata, funde, amarra, corta. Submete a garrafa ao calor, à tração, ao esmagamento. No Paço das Artes, em 1998, a sala escura acentuava o brilho de cacos sobrepostos a fotos e montagens; garrafas de cerâmica branca com interior vermelho pareciam corpos dilacerados; esculturas de tampinhas tornavam-se totens pós-industriais; pares de garrafas ligadas por mangueiras evocavam rituais científicos, como se compartilhassem fluidos, memórias ou dores. Vendo ao fundo a projeção da explosão de uma garrafa, o público era convidado a pisar sobre seus cacos, e a destruição passava a ser parte da experiência estética — e da crítica silenciosa. A memória formal da Coca-Cola se esfarelava diante dos pés do espectador, mas resistia na forma residual. Mesmo no menor caco, lá estava a inapagável silhueta. Ribenboim projeta, assim, uma espécie de percurso arqueológico. As garrafas deixam de ser objetos utilitários para se tornar vestígios de uma civilização obcecada por consumo, padrão e fetichização. A peça final da série — um sítio quadriculado contendo todos os cacos recolhidos da instalação — funciona como um documento de ruína: a Coca-Cola transformada em cápsula do tempo, artefato fossilizado de um desejo industrial. Nessa mesma exposição, a instalação Cocafonica, com cubos de latas compactadas e caixinhas de música incrustadas, formava um conjunto de “realejos” com um som cacofônico criado em colaboração de Wilson Sukorski e Livio Tratemberg. Realejo, som e sentido no lugar do desejo.
Na mostra individual realizada em 1999 na galeria KunstRaum, de Berlim, Brigitte Hammer analisa a série Coca-Cola de Ribenboim e a considera uma das poucas a conseguirem voltar ao tema das garrafas de consumo (que parecia exaurido) de maneira inovadora, convertendo o familiar em estranho, o cotidiano em ritual e o fragmento em arqueologia da forma.
Paulo Herkenhoff percebe nesse gesto uma mudança de chave no uso simbólico da Coca-Cola na arte latino-americana. Ao contrário de um ataque panfletário ou de uma crítica direta ao imperialismo, como fizeram Antonio Manuel ou Cildo Meireles, Ribenboim opera pelo esgotamento simbólico da forma. Ele retira a garrafa de seu sistema semiótico e a lança num território de reinvenção plástica, onde cada fragmento — como em uma holografia — ainda carrega o todo, como se a forma original fosse indestrutível em sua ubiquidade.
Entre esculturas de fibra de tampinhas de 2 metros e latas prensadas como fardos de anonimato, Ribenboim constrói uma alegoria do tempo e do excesso. A garrafa torna-se espelho do corpo, da memória, da cultura, do lixo. A Coca-Cola, eternamente jovem e repetida, vira mito reciclado, cadáver revivido, sombra inextinguível.
Ao fim, não se trata de denunciar ou exaltar, mas de escavar — de recolher cacos e com eles desenhar uma nova cartografia da forma. A série Coca-Cola é, assim, um testemunho eloquente da capacidade do artista de fundir crítica e invenção, método e metáfora, impermanência e permanência. Aqui, mais uma vez, vemos a operação essencial de Ribenboim: desmontar para recompor, dissolver para tornar visível, construir sentido a partir do que se despedaça.
1998
Vidro
35 x 10 cm
ARQUEOLÓGICO N.57
2000
Madeira e cerâmica
50 x 50 cm
Fragmentos n.57 do sítio arqueológico de
garrafa em cerâmica para a exposição
Erresistentziak - Resistências
San Sebastian, Espanha