Ricardo
Ribenboim

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Créditos

A proposta de Intervenção marinha ECO-92 opera a indistinção de intervenção ambiental e intervenção no ambiente. Explora a força do paradoxo, não a contradição, pois o emprego deliberado de material convencionalmente poluente — o plástico — visa evidenciar a gênese da contradição. Aplica-se ao real para indicar o possível. Propõe um modo de atividade significante que desloca as significações fixadas (poluente/não poluente, natureza/cultura), mostrando, na situação atual, a inadequação dessas disjunções que, neorromânticas, postulam uma identidade perdida.

No entrelugar, aculturando elementos naturais e não naturais, a linguagem inscreve-se por signos de transmutação cultural. Assim, não se apropria dos despojos cotidianos nem de fragmentos naturais para metaforizar a destruição da natureza e o desejo de recuperação. O uso de materiais e formas tecnocientíficas, estetizados, visam não à desfuncionalização, como é hábito nesses casos, mas à exploração pela ênfase conceitual, da ambiguidade dos significados ordenados. O ludismo opera as passagens do perceptivo-sensorial à significação. Poetização das propriedades plásticas para permitir entrever o que não se manifesta no discurso oficial, moralizante. Entre o sinal e a ação vige o espaço das intervenções.

O que essas produzem? Experiências que revelam tanto do êxtase visual como dos simbolismos dos estados de transformação: memórias, jogos e surpresas que remetem a outra posição do imaginário. Um imaginário descolonizado?

Aspirar, pois, não à recuperação endêmica, ao mito perdido, à restauração sublimadora de um antes da tecnologia, mas à desidealização da cultura, pela associação de real e desejo.

Elementos perturbadores do ambiente conformado detonam, simbolicamente, alternativas.

Essa eficácia simbólica depende, entretanto, da oportunidade e da intensidade dos signos agenciados, pois tudo vira signo se a situação é tensionada, isto é, dotada da força do instante como também de transcendência própria. Uma tal intervenção excita a reflexão.

Para Oiticica, bólides são objetos/não objetos que não se limitam à visualidade; propõem uma entrevisão de uma subjetividade descondicionada pela mobilização de cargas expressivas que renovam a sensibilidade na experiência individual e coletiva. Enfatizam o conceitual e o processual; ressaltam a luminosidade da cor, das texturas e dos movimentos.

Transobjetos; estruturas imanentes, marejadas pela transparência, incitam a passagem de um estado a outro da experiência como vulto da significação.

Disseminados, multiplicados no ambiente, como nessa proposta, desencadeiam as forças inconscientes e agenciam a consciência produtiva: reflexão.

  1. Texto para folder da exposição no Museu da Imagem e do Som, 1992.
    Revista Atlântica, número 22, 1999.