Bicho na Lagoa
Prêmio Sergio Motta
Tecnologia (vídeo) e empirismo científico estão presentes nessa nova fase da obra de Ricardo Ribenboim. Suas propostas de monitoramento subaquático configuram um leque aberto de fronteiras: em primeira instância, elaboram a passagem do objeto artístico formal para a condição do informe, criando um diálogo preliminar entre a natureza e o artístico. Depois, tratam de revivificar o objeto, agregando-lhe uma nova vida. O que se pressupunha acabado, fossilizado, agora passa por uma transformação, situando-se num limiar entre a arte e a arqueologia, a arte e a ciência, resultando em uma espécie de ready-made biológico. A mutação e a vida em relação direta com o meio ambiente estão no centro da poética dos monitoramentos subaquáticos de Ribenboim. Na primeira fase do trabalho, o artista depositou diversas esculturas de madeira, alumínio, tecido e concreto no fundo da Lagoa da Conceição, em Florianópolis, instalou uma câmara de vídeo que acompanhou o percurso e as transformações desses objetos no tempo — 24 meses submersos em processo de incorporação de outros organismos vivos — e apresentou um aquário na exposição hiPer>relações eletro//digitais (Porto Alegre, 2004), Bicho LC2, deslocando, novamente, o objeto do seu contexto. Agora, o artista quer continuar sua pesquisa aprofundando esse processo. A partir da instalação de um novo sistema de monitoramento com horários e datas predeterminados, Ribenboim pretende mapear a evolução da obra submersa e a fixação de novos elementos da fauna na peça “original”.
Além da construção de um inventário faunístico e sua consequente classificação, o artista leva ao limite a discussão referente ao “lugar comum” da instalação da obra de arte. Promovendo o deslocamento do objeto do lugar no qual seria normal encontrá-lo — “museu, galeria de arte, coleção particular para o fundo da lagoa” —, o artista se insere em uma linhagem de atuações artísticas que se valem da transgressão com a finalidade de agregar novos significados à ação da arte. Nesse horizonte, podemos citar não somente o próprio Duchamp, mas Hélio Oiticica e Artur Barrio, entre outros. Valorizando muito mais o processo do que o acabamento da obra, mais uma vez deparamos com a ideia do desdobramento, da dilatação da temporalidade, num ato poético que se configura por meio do somatório, da combinação de ações ao longo do tempo. Essas obras, cujo hábitat agora é o fundo de uma lagoa, na verdade discutem o destino e o valor dos objetos e contextos, bem como as suas possíveis alterações no tempo. Alterações que não dependem da intervenção humana ou científica — “cirurgias plásticas, conservação museológica, modelação do corpo via exercícios e dietas” —, mas que estão simplesmente sujeitas à ação do tempo. Instalar suas obras em Fernando de Noronha e Galápagos será ainda outra etapa. “Lá poderá ser o lugar do olhar submerso. O foco de atenção nessas ilhas é totalmente subaquático. É interessante pensar no deslocamento do trabalho para onde estão os olhos, em vez de levar os olhos para onde ficam os trabalhos, como nos museus”, afirma o artista.
- Texto do folder do
Prêmio Sergio Motta 2004.