Arte/Cidade 3
Em um trabalho realizado há pouco tempo, parte integrante do megaprojeto ARTE/cidade, exposição que teve lugar ao longo de um interstício urbano deteriorado de 5 quilômetros de extensão, ligando o centro à Zona Oeste da cidade de São Paulo, Ricardo Ribenboim, entre outros trabalhos/intervenções apresentados na ocasião, chamou atenção do público por haver juntado na plataforma ao lado da linha de trem da estação Júlio Prestes algo em torno de 350 barras de gelo. Todas de pé com alturas variáveis, formavam um conjunto retangular compacto “emoldurado” por sarrafos largos de madeira clara.
A alvura do material, acentuada pelas variações volumétricas das barras de gelo, trazia junto a ideia de pureza e silêncio. Um efeito que contrastava com a atmosfera ruidosa e sombreada da estação de trem, com seus sons altos e súbitos de metal contra metal, o imenso corpo de ferro do trem travando sua velocidade na chegada ou pesadamente se lançando para fora da estação, serpenteando através da cidade, deixando à sua saída seu rastro sonoro de massa expansiva progressivamente tornado um tênue fio distante até se esfumar nas microscópicas partículas de pó em suspensão vistas flutuando nos raios que refratavam pelas telhas claras e pelas frestas do telhado.
Afora sua luminosidade, a construção de gelo intrigava pelo que sugeria de efemeridade; aos poucos, ao passo que se dissolviam, os volumes se soldavam, até desaparecerem num plano transparente de água a escoar por entre os pequenos intervalos dos sarrafos que serviam de barreira ao conjunto. A questão preponderante aqui é o movimento. O movimento da locomotiva — movimento que outrora ela, quando locomotiva a vapor, deveu a água — refere-se ao deslocamento no espaço.
Um deslocamento de ritmo variável, pelas sucessivas acelerações e freadas, interrompido pelas paradas nas estações. Visto de cima, abstraindo-se a concretude da cidade, tem-se um pequeno segmento de reta cheio, como um líquido dentro de uma mangueira transparente, a fluir para lá e para cá ao longo das duas linhas paralelas — os trilhos.
Já o movimento das barras de gelo é de outra natureza; trata-se de um movimento qualitativo. Do gelo para a água, do sólido para o líquido.
O espectador poderá ter conferido o lento e implacável espetáculo do toque do ar dissolvendo a superfície do gelo. A troca de hálito dos elementos. Um evolando-se para o outro, como uma aragem feita de pequenas nuvens esgarçadas. O ar ataca macerando a superfície da pedra e a vai reduzindo em vagas imperceptíveis que brotam da superfície para se derramar em direção à base até formar um tapete irregular. O próximo passo é esse tapete líquido se evaporar. Abstraia-se a natureza do material e ter-se-á a passagem do volume para o plano e do plano novamente para um volume. Só que agora um volume intangível, que não se separa do ar como o anterior, mas que se confunde com ele.
O trato com o movimento, entendido numa formulação ampliada, tem sido uma constante na trajetória de Ribenboim. É frequente seus trabalhos testarem até o limite a capacidade de algo — coisa ou signo — prosseguir sendo ele próprio, mesmo após haver sido compactado, dilacerado, liquefeito, amassado, derretido, distendido.
- Texto para o catálogo da exposição
Troca de pele, Paço Imperial, RJ.
Publicado na revista Atlântica, número 39, 2004.