Ricardo
Ribenboim

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Créditos

Se na série dedicada à Coca-Cola Ribenboim foi do invólucro, em sua pureza industrial e ergonômica, ao detrito, à metáfora arqueológica, no ARTE/cidade 3 (1997), ele inverteu o percurso, tendo como ponto de partida o espaço urbano decadente. Num dos textos estampados no catálogo do evento, Lorenzo Mammi refere-se a São Paulo como “uma cidade cega, que não vê a si mesma”, uma cidade que “não nasceu de um conjunto de moradias, mas de uma empreitada industrial, que já embutia em si toda a violência posterior”. E foi nessa paisagem deteriorada, morada do crime, que Ribenboim fez uma série de intervenções pontuais, interconectadas.

A primeira intervenção ocorreu no próprio trem, cujas laterais foram pintadas com formas geométricas e cores vivas. A máquina operando, ao mesmo tempo, como um elemento visual e dinâmico incidindo sobre um espaço croma­ticamente neutro e materialmente deteriorado, dando-lhe, assim, maior visibilidade, e como articulador espacial das demais intervenções. Em todas elas a matéria-prima essencial era a água. Na plataforma da estação da Luz armou uma estrutura com 350 barras de gelo.

Em seis enormes cuias localizadas na base de silos semidestruídos, colocou, sucessivamente, junto à água, carvão vegetal, óleo, ossadas de um cadáver, como tantos ali desovados em disputas de traficantes, o que sobrou de objetos carcomidos pelo abandono pela fuligem. Uma espécie de cortina de água pura que se via à chegada da Estação Matarazzo completava o percurso.

O movimento era o elemento unificador de todos os trabalhos: o trem que se deslocava lentamente sobre os trilhos, o gelo se desfazendo, comprometendo a estrutura minimalista, as borbulhas ferventes na água putrefata, liquefação, evaporação, queda. Visíveis ou legíveis nas intervenções, tanto a crítica social quanto a metáfora bíblica: pecado, purgação, ascensão. Mas eram também obras cinéticas, hidrocinetismo. Um cinetismo que, distanciando-se de sua tradição retínica, mecânica, pendular, aproximava-se da arte povera no que ela tem de orgânico e de reelaboração estética das estruturas internas da matéria.

SILOS | CARVÃO FLUTANTE
Instalação do percurso
Carvão vegetal e água
  1. Texto para o catálogo da exposição Troca de pele.
    Galeria Nara Roesler, 1999.