Impermanência
e transmutação
Prólogo
O que resta de uma forma depois que ela se desfaz? Que resíduo poético se aloja na matéria quando essa se curva ao tempo, à água, ao sopro do ar ou ao toque da morte? Este livro nasce da hipótese de que a obra de Ricardo Ribenboim não é apenas um conjunto de objetos e instalações, mas uma filosofia em movimento, uma prática estética fundada na transformação contínua.
O artista constrói como quem sabe que tudo o que é sólido se desmancha no ar. Suas esculturas não têm vocação de eternidade; são transitórias, compostas de madeiras que se articulam, gelo que derrete, plástico que se esvazia, metal que se curva, cera que escorre — e aí se encontra sua força. Assim como a ideia japonesa de mujō, que celebra a impermanência como condição da beleza e da vida, a estética de Ribenboim é uma poética do efêmero.
Seus gestos — lançar bolas ao mar, fincar agulhas na cidade, projetar vídeos sobre a pedra, derreter garrafas ou moldar a própria cabeça em cera — não buscam estabilidade, mas movimento, descontinuidade, metamorfose, mudanças no estado da matéria. Uma escultura se converte em performance. Um inflável vira vídeo. Um resto vira semente de outra obra. Nada é definitivo. Tudo é processo.
Mas há também outro princípio japonês que se adensa no seu percurso: o kintsugi, a arte de reparar cerâmicas quebradas com ouro, não para esconder as rachaduras, mas para exaltá-las. A obra de Ribenboim, especialmente em sua maturidade, adota esse gesto de recomposição. Ele costura pedaços de obras antigas, acumula sobras de exposições passadas, transforma fragmentos em novas constelações visuais. Suas séries mais recentes — De tudo fica um pouco e Rastro dos restos — são celebrações da cicatriz como linha de continuidade.
Este livro acompanha a trajetória desse artista múltiplo como se percorresse um organismo vivo. Não propõe uma cronologia rígida, mas um corpo em mutação, em que cada obra está ligada à anterior por um fio de matéria e tempo, como se o artista estivesse costurando a própria história com linhas feitas de sombra, som, esqueleto e sopro.
A impermanência, aqui, não é fim. É forma. E o que se quebra retorna — não como era, mas mais inteiro em sua falha visível.
Coelho no país das maravilhas
2006
Latão, porcelana e cera de abelha
10 x 14 x 5 cm
Col. Marice Aidar Ribenboim