Intervenções:
o gesto
inaugural
A década de 1990 marcou uma inflexão decisiva na trajetória de Ricardo Ribenboim. Foi nesse período que o artista inaugurou sua produção voltada às intervenções urbanas em larga escala, ancorando sua poética na articulação entre a materialidade e o espaço público. Esse novo momento se estruturou em torno de três obras fundamentais: Agulhas, Band-aid e Voluta — peças que instauraram não apenas uma nova linguagem formal, mas uma ética de inserção, contaminação e escuta do mundo.
A primeira dessas ações — e talvez a mais emblemática — ocorreu em 1992, quando uma imensa agulha metálica, com mais de 3 metros de altura, foi cravada no asfalto da Rodovia Anchieta, costurando os traços brancos da pista como se remendasse uma ferida urbana. Esse gesto marcou o nascimento da série Agulhas, que posteriormente se desdobrou em diversas cidades do mundo, incluindo Genebra, Nova York, Nova Déli e São Paulo.
Trata-se de uma intervenção que tensiona os limites entre o doméstico e o monumental, o funcional e o simbólico. A agulha, retirada do universo íntimo da costura, é amplificada ao ponto de adquirir uma presença escultórica e política. Ao ser inserida no tecido urbano, ela não apenas o perfura, mas o refaz, simbolicamente. Há, nesse gesto, uma busca pela sutura do espaço público — pela tentativa de remendar aquilo que foi dilacerado pela lógica do progresso ou da negligência institucional.
Essas agulhas, apresentadas em configurações distintas, trazem cordas e fios feitos de gravatas, andrajos de sem terra ou linhas com cerol — cada uma carregando uma história, um signo social, uma crítica implícita. Essa apropriação dos materiais do cotidiano, transformados em metáforas da costura política, do embate social e da memória coletiva, constitui o núcleo da obra.
Ao refletir sobre essa fase, o artista compreende a distância entre a ação artística e as realidades sociais como um “vazio conceitual e ético”, um espaço simbólico de abandono no qual a arte intervém como possibilidade de cicatrização. A agulha torna-se então totem, ícone, dispositivo de linguagem. Sua monumentalidade não a fixa, mas a lança ao deslocamento: é uma escultura em trânsito.
A recepção crítica da obra confirmou sua força. Ao ser exibida no Sesc Pompeia em 1998, no contexto da exposição Limite da consciência, a intervenção foi destacada como uma das mais impactantes. A potência simbólica das agulhas, agora com linhas pendentes e fincadas em um muro de tijolos, que se mimetizava com as paredes sem revestimento do espaço, reverberava com o público. Cada elemento parecia acionar uma rede de sentidos: a memória dos deslocamentos, as costuras do tecido urbano, o corpo ferido da cidade e sua possível reparação.
No mesmo ano, Ribenboim retomou a lógica do reparo com os Band-aids, adesivos gigantes colados em espaços públicos. Objeto banal e cotidiano, mas com uma carga simbólica de cura e cuidado, o Band-aid, ao ser agigantado e aplicado no contexto urbano, adquiria nova densidade. A ação desdobrou-se na realização de uma escultura colocada em exposição no Sesc Pompeia. O gesto do artista permanecia o mesmo que motivara as Agulhas: destacar a necessidade de atenção à cidade ferida, à pele social esgarçada.
Ainda explorando as possibilidades do gigantismo, Ricardo criou, em 1999, a obra-intervenção Voluta e a colocou no adro da Igreja do Carmo, em Ouro Preto. A escultura de 3 metros de altura replicava, em fibra de vidro, um ornamento típico das igrejas barrocas. A peça que serviu de modelo havia sido encontrada pelo artista nas ruas daquela cidade, quando de sua visita, ainda estudante, às cidades históricas, um vestígio que ele cuidadosamente guardou. Retirado do invisível do detalhe, o elemento arquitetônico foi elevado à escala monumental e deslocado de seu lugar original, passando a ocupar o centro do espaço, como se voltasse a reclamar atenção para sua beleza esquecida.
Essa operação de deslocamento — do miúdo ao colosso, do invisível ao visível — revela a estratégia contínua de Ribenboim: tornar perceptível aquilo que foi banalizado pela repetição, instaurar no olhar do público uma nova escuta para os sinais do tempo, criar palimpsestos, construídos sobre algo anterior, mantendo traços do original, mas instaurando novas leituras. Há, em Voluta, uma arqueologia visual do ornamento, mas também uma política do espaço: provocar o olhar adormecido pela familiaridade e fazer da arte um ponto de fricção com a história.
Entre Agulhas, Band-aid e Voluta, delineia-se um tríptico inaugural que condensa os principais elementos da poética de Ricardo Ribenboim: a monumentalidade como forma de crítica, a apropriação de signos cotidianos como linguagem simbólica e a cidade como território de escavação estética. São obras que não propõem uma solução, mas uma costura — e que fazem da impermanência não apenas um conceito, e sim um método.
1992
Alumínio, cobre e base em granito
50 cm agulha
48 x 48 x 48 cm base
1992
Intervenção na Via Anchieta
Alumínio
350 x ø7,5 cm